Lúpulo tem potencial para abastecer indústria cervejeira nacional

Willamette Valley hops growing for the microbrew market near Salem Oregon

Podia abastecer a indústria cervejeira, como no passado, mas hoje apenas 12 hectares estão agricultados com lúpulo. Os custos de instalação são consideráveis e os preços, muito volúveis, são dois dos entraves ao sucesso deste cultivo. As contas dos produtores apontam para um custo por hectare de 7500 euros, sem amortizações da maquinaria.

Produzir lúpulo não é fácil! É caro, difícil e os preços são volúveis. Ainda assim, o Nordeste tem aptidões ideais para esta cultura, tal como parte do distrito de Braga. De negócio relevante no passado, hoje é diminuto. Mas, se houver apoios, pode ressuscitar.

Ao certo não se sabe quanto pode representar o negócio da produção de lúpulo em Portugal, uma vez que as cervejeiras importam extrato de lúpulo, refere Manuel Ângelo Rodrigues. Este docente do Centro de Investigação de Montanha (Instituto Politécnico de Bragança) salienta que é hoje é uma atividade residual.

E o residual abrange dois produtores, num total de 12 hectares, sendo cerca de metade por cada um, ambos nas proximidades de Bragança. António Alexandre Rodrigues tem a sua propriedade em Pinela, a meio caminho entre Macedo de Cavaleiros e Bragança, e o cultivo do lúpulo ocupa apenas uma pequena parte da propriedade. É com gosto notório que fala desta sua produção.

Entre as décadas de 60 e o final de 80, do século passado, este cultivo conheceu alguma expressão, nomeadamente nos distritos de Bragança e de Braga. “A zona de Bragança atingiu valores máximos de área instalada de 99,5 hectares (1986). A zona de Braga registou um máximo de 118,5 hectares (1980). O conjunto das duas zonas registou o máximo histórico de 205,8 hectares (1976). Se as áreas máximas em produção de Bragança e Braga tivessem coincidindo no tempo ter-se-iam registado 218 hectares” – refere o professor.

“Na década de 1970, o setor produtivo chegou a satisfazer integralmente as necessidades da indústria cervejeira nacional. Mesmo admitindo que atualmente se produz mais cerveja do que na década de 1970, em teoria será possível o setor produtivo abastecer a indústria cervejeira nacional. Contudo, estamos tão longe dessa realidade que parece utopia. Mas devemos pensar que Portugal tem condições ecológicas muito favoráveis para produzir lúpulo. Falta algum desenvolvimento tecnológico ao setor para ser competitivo à escala internacional. O setor do lúpulo do futuro (a existir) tem de ser lançado em bases agronómicas substancialmente diferentes das atuais” – explica Manuel Ângelo Rodrigues.

“Mas devemos pensar que Portugal tem condições ecológicas muito favoráveis para produzir lúpulo. Falta algum desenvolvimento tecnológico ao setor para ser competitivo à escala internacional.”

Os estudos iniciais ocorreram na década de 60, tendo-se concluído que as zonas indicadas eram nos distritos de Braga e Bragança. “Só estas duas regiões reuniam condições ecológicas para produzir lúpulo de qualidade”. Assim, “a cultura foi restringida por decreto” a essas localizações – salienta o docente.

Porém, o académico considera que as áreas podem ser alargadas a outras zonas, desde que seja “possível criar uma boa conjuntura para esta cultura, a área potencial de cultivo pode ser mais que suficiente para satisfazer as necessidades da indústria cervejeira nacional”.

Poucos compradores

Um dos problemas que se colocam à vontade de iniciar esta produção resulta da estrutura da indústria, dominada pela Central de Cervejas e pela Unicer, e somando as outras três empresas, membros da Associação Portuguesa de Produtores de Cerveja, a conta ronda os 100% – Empresa de Cervejas da Madeira, Fábrica de Cervejas e Refrigerantes João Melo Abreu, Font Salem.

Manuel Ângelo Rodrigues explica que “a reduzida dimensão do setor produtivo nacional e a abundância de lúpulo nos mercados mundiais fazem com que os nossos produtores nunca tenham tido, e provavelmente nunca terão, qualquer poder para influenciar o preço. O setor tem de estar consciente de que tem de ser competitivo dentro dos preços estabelecidos nos mercados internacionais”.

António Alexandre Rodrigues salienta que a flutuação dos preços está relacionada, além da quantidade produzida num ano, com os stocks que as cervejeiras mantêm. “Mantenho-me a produzir, porque não vivo só desta cultura. Se dependesse, não poderia sobreviver”. Há anos “em que se ganha alguma coisa e outros nada”.

O negócio das cervejeiras artesanais, que tem tido um crescimento do número de produtores, não é solução de escoamento e de valorização da lavoura. “As cervejas artesanais requerem diversidade de extrato, isto é, lúpulo de variedades de aroma. Em Portugal, desde que há produção de lúpulo, esta esteve sempre baseada em variedades amargas. Até ao início da década de 1990 cultivou-se a variedade Brewers Gold e desde então cultivou-se a variedade Nugget (é a variedade que cultivam os dois produtores atuais)” – esclarece o docente do Instituto Politécnico de Bragança.

Acresce que “a grande maioria das cervejarias artesanais necessita de quantidades de lúpulo pouco significativas, o que será um negócio pouco interessante para os produtores de lúpulo. As cervejarias artesanais poderão também tentar ser produtoras e transformar-se elas próprias em empresas com produção de lúpulo” – avança Manuel Ângelo Rodrigues.

“É usado na indústria farmacêutica, em medicamentos para insónia, stress e ansiedade. Há variedades que podem ser usadas para fibra, etc. Contudo, não é crível que Portugal mantenha um setor produtivo de lúpulo sem ser para a indústria cervejeira”

Porém, a indústria cervejeira não é a única que utiliza o lúpulo. “É usado na indústria farmacêutica, em medicamentos para insónia,stress e ansiedade. Há variedades que podem ser usadas para fibra, etc. Contudo, não é crível que Portugal mantenha um setor produtivo de lúpulo sem ser para a indústria cervejeira” – informa o professor.

Uma cultura que bebe como milho

O lúpulo é cultivado em diferentes continentes, mas não aceita todos os climas. Manuel Ângelo Rodrigues refere que “esta espécie necessita de vernalização (uma certa quantidade de frio) para o seu ciclo reprodutivo funcionar. Tendo Portugal por referência, podemos dizer que as regiões mais frias do Norte e Centro têm maior potencial para produzir lúpulo. Devo recordar que os ensaios de adaptação realizados na década de 1960 recomendaram que o cultivo de lúpulo se devia restringir às regiões de Braga e Bragança. Contudo, será possível cultivar lúpulo em boas condições fora destas duas zonas”.

António Alexandre Rodrigues refere que nos estudos, da década de 60, foram feitas experiências na zona da Guarda e na Cova da Beira. Embora a planta necessite de altitude – entre os 800 e 850 metros – a Guarda regista muitos nevoeiros, atraindo problemas. O lúpulo produz-se entre os paralelos 30 e 50, requerendo frio no inverno e calor no verão.

A Europa produz 39,8% do lúpulo, seguida das Américas (25,7%), África (20,1%), Ásia (12,8%) e Oceânia (1,6%). Por países, Alemanha e Estados Unidos são os maiores produtores. “O fornecimento de lúpulo à indústria cervejeira é controlado por grupos económicos, sendo o mais relevante, a atuar na Europa, o grupo Hopsteiner. Assim, tal como em inúmeros outros setores, os produtores portugueses têm de produzir lúpulo de forma competitiva dentro dos preços que se estabelecem nos mercados internacionais” – diz Manuel Ângelo Rodrigues.

Quanto a solos, o lúpulo é exigente. Precisa de “elevada espessura efetiva”, diz o docente. E ao mesmo tempo, o chão tem de ter boa drenagem, com “texturas francas a franco-arenosas. As restantes características são corrigíveis pelo homem”.

“O solo tem de ser bastante forte, como os lameiros de prados permanentes”, formados por argila e muita matéria orgânica, diz António Alexandre Rodrigues. As raízes vão até 1 a 1,5 m de profundidade.

Quanto ao consumo de água, tudo depende das variáveis edafoclimáticas locais. “Tendo por referência o Norte de Portugal e a tradicional rega à manta, é expectável um consumo de água por hectare da ordem dos 5000 metros cúbicos”.

António Alexandre Rodrigues informa que o lúpulo consome cerca de 18 cm3 de água e “quando se chega ao final tem de se recomeçar na outra ponta”. O agricultor informa que “só há outra cultura comparável, em consumo de água, que é a do milho”. O fornecimento é feito por alagamento.

As plantas são podadas na raiz e necessitam de frio para a dormência invernal. A poda é feita entre março e abril e germina em meados de abril. Em meados de julho já está com sete metros de altura. “Tem de ser regada a partir de 15 ou 20 de maio até ao final de agosto ou princípio de setembro”, informa António Alexandre Rodrigues.

O tempo da apanha obriga a um esforço laboral de “24 horas por dia”, diz António Alexandre Rodrigues. É que após a apanha diurna, as flores têm de ser secas. “Tenho de fazer de três a quatro fornadas por noite”.

Uma cultura sem rotação

O lúpulo é uma espécie perene, de cultivo ao longo de anos, podendo chegar a mais de 20 anos. “O cultivo é ao ar livre. A elevada estatura da planta e as necessidades em frio desaconselhariam o cultivo em estufa. Portugal tem excelentes condições para produzir lúpulo ao ar livre” – explica o docente.

O que é um bom lúpulo? Manuel Ângelo Rodrigues explica: “As variedades são escolhidas sobretudo pela sua riqueza em ácidos a, que é o parâmetro mais importante no rendimento do produtor. Contudo, o lúpulo pode ser apreciado por diversas características físicas e químicas. Ao nível do produtor, este deve preocupar-se que os cones (inflorescências) atinjam a dimensão e o aspeto característico da variedade e que estão isentos de odores que indicam fermentações ou problemas sanitários. A técnica cultural, sobretudo a proteção sanitária, é muito importante nos aspetos qualitativos do lúpulo”.

As plantas trepam até sete metros de altura. Sobem através de cabos de arame presos a estruturas em cimento, em duas linhas. A população é de cerca de 3000 plantas por hectare. Apenas a flor é aproveitada, o caule não tem uso e a folhagem fica para matéria orgânica.

O lúpulo é sensível e obriga a muita atenção, sendo o míldio, o oídio, os afídios, os ácaros e as lagartas as grandes preocupações, forçando a realização de muitos tratamentos. O caso do oídio é particularmente grave, “uma vez que o fungo fica no cone e vai do interior para o exterior, e não há produto eficaz” – salienta o agricultor.

Os ácaros (aranhiço-vermelho) conseguem destruir toda uma produção em três ou quatro dias. O tempo do calor exige uma extrema atenção, sob pena de perder o controlo das pragas, avança António Alexandre Rodrigues.

Em termos de cultivares, em Portugal é usada apenas uma. Porém, esta não é a mesma agricultada na altura do início do negócio. “Quando a cultura foi instalada pela primeira vez com sucesso, em Portugal, na década de 1960, fizeram-se estudos de adaptação com várias cultivares e escolheu-se uma, a Brewers Gold. Na restruturação, que ocorreu no início da década de 1990, escolheu-se uma cultivar diferente da anterior, a Nugget, sobretudo por ser mais rica em ácidos α. Se estivermos à beira de uma nova restruturação, pode ser importante fazer estudos de adaptação de cultivares. Em resumo, uma boa cultivar deve estar adaptada às condições de cultivo nacionais e ser do agrado da indústria cervejeira”.

As plantas trepam até sete metros de altura. Sobem através de cabos de arame presos a estruturas em cimento, em duas linhas. A população é de cerca de 3000 plantas por hectare. Apenas a flor é aproveitada, o caule não tem uso e a folhagem fica para matéria orgânica.

Um produto caro de se fazer

Começar a produzir lúpulo não é pera doce. A cultura implica um esforço financeiro inicial considerável. Assim, a instalação de novas plantações terá de beneficiar de mecanismos específicos que incentivem quem se queira dedicar a esta liana de origem europeia.

lúpulo - planta

“Em termos de investimento, o que mais distingue o lúpulo das restantes culturas é a elevada quantidade de infraestruturas e equipamentos específicos. A instalação necessita de uma estrutura de postes de suporte impressionante. A planta atinge sete metros de altura e desenvolve muita biomassa” – explica Manuel Ângelo Rodrigues.

Por isso, “segurar esta estrutura produtiva não é fácil. Necessita de um forno de secagem das flores, de uma máquina para colher as flores, reboques adaptados para a colheita em campo, máquinas específicas de poda, etc. Esta cultura tem custos de instalação enormes. Sem um programa de financiamento específico não é de admitir que vá entusiasmar muitos jovens agricultores” – informa o docente do Instituto Politécnico de Bragança.

“Não dá rendimento que possa interessar uma pequena iniciativa, com o preço atual”, avança António Alexandre Rodrigues. Atualmente, o valor situa-se em torno dos quatro euros por quilograma, estando a produtividade por hectare situada entre os 1800 e os 2000 quilogramas. Uma produtividade comparável à dos principais produtores mundiais. Porém, a ausência duma grande quantidade de agricultores em Portugal não permite que a produção possa influenciar o mercado.

O que é vendido diz respeito apenas à flor, que tem de ter apenas 10% de humidade. “É muito volume e pouco peso”, diz o agricultor.

Uma outra dificuldade de produção é a vulnerabilidade a inimigos. “O lúpulo é uma planta com bastantes problemas fitossanitários. As infestantes colocam um problema equivalente ao que ocorre com as restantes culturas, é necessário combatê-las anualmente. Na tecnologia tradicional de cultivo chegam a aplicar-se 19 tratamentos fitossanitários. Contudo, na nossa opinião este calendário de tratamentos pode ser aliviado com novos métodos de cultivo, sobretudo relacionados com a alteração do sistema de rega à manta por rega gota a gota” – adianta o professor.

Ação de formação para ganhar novos produtores

Embora com preços volúveis, dificuldades de prática e exigência de equipamentos, o cultivo do lúpulo pode ser um interessante negócio. Embora existam apenas dois agricultores, ninguém trabalha por amor à arte e perdendo dinheiro.

Assim, para captar mais agricultores, o Centro de Investigação de Montanha do Instituto Politécnico de Bragança e a Bralúpulo (Associação dos Produtores de Lúpulo de Bragança e Braga) organizaram uma ação de formação de três dias, entre 12 e 14 de julho.

No primeiro dia da formação, decorreu o seminário “Lúpulo, Malte, Leveduras e Cerveja Artesanal”. O dia 13 foi dedicado às “Jornadas Lúpulo e Cerveja”. No último dia decorreu umworkshop sobre o fabrico de cerveja artesanal.

Manuel Ângelo Rodrigues explica que esta iniciativa, que contou com 80 presenças, visou demonstrar o potencial deste cultivo, “na perspetiva de se conseguir restruturar. Foi também tema do curso a importância do lúpulo no processo cervejeiro e as tendências da indústria nacional e internacional”.

O docente mostrou-se satisfeito com o evento, nomeadamente no workshop, em que estiveram presentes mais formandos do que o esperado, totalizando 30 pessoas. “As jornadas registaram uma adesão significativa das cervejeiras nacionais e também dos produtores de cerveja artesanal. Compunham ainda a assembleia numerosos estudantes, em particular da área da agronomia, e numerosos outros produtores potenciais de lúpulo” – concluiu o académico.

Artigo publicado na edição de julho de 2015 da revista VIDA RURAL

Fonte: http://www.vidarural.pt/